
Os becos da vergonha, escuros como outrora, vão sendo povoados. O chão continuará gelado, húmido, arrepiantemente cru aos nossos ossos. Deito-me, sinto a sua invasão e aceito. Aceito, quero, exijo aqui ficar para sempre até me corroeres todo, por todo, de todo o modo, todos os segundos! Mas permaneço eu... sempre eu, sempre o mesmo aos olhos que passam e não me vêem, que nunca me vêem a ter vontade de apodrecer de asco, a derreter de vergonha! - Vejam, olhem! E vêem, e olham, e permaneço igual. A ordem no nascer, a asfixia dos dias normais, a indecência de ser maioria! Sou-o, mas não tenho culpa! Quero culpados, vejam: é tudo fachada, como tudo, como os vossos gestos, os vossos rostos, as vossas vidas! Ide, venham, corram, cobardes! Na cobardia da vossa indiferença, no vilipêndio de cada olhar em frente: eu EXISTO! Que linda a vossa ordem: vai por onde ele vai, o rio corre sempre para o mesmo destino - sei que hoje vai chover em cada centímetro de chão e que vai limpar da cidade cada fluido do pecado, cada gota de sangue roubada, cada nojeira se ser. Mas tens uma capa e a noite não cai sobre ti. Mas a noite, varrida pela borrasca justa é toda minha, é toda nossa, que do chão cinzento fazemos leito.
2 anos e o rio douro é o mesmo. As ruas são as mesmas e com mais gente, as noites são igualmente gélidas de gente e o meu corpo continua no chão: inerte, cinzento, feito folhas que caem, entregue, à espera de me fundir contigo, Gisberta...